
Havia algo na sua barriga. Um ovo crescia dentro dela. Um ovo que se tornaria alguém. O que é um filho?, é o que perguntará ao amigo que conhece tanta coisa. Observa os girinos nadando na lagoa, o filhote de pássaro com as penas novas e claras, o mico que serpenteia a calda pela árvore em frente, o pato a mergulhar com o pescoço todo comprido, o gato preto esticando o corpo antes de saltar sobre a presa. Lúcia sente uma estranha conexão com esses seres. Como é esticar-se como borracha? Como é mergulhar na lagoa? Como é prender o rabo ao tronco? Como é virar sapo um dia? Como é sair de um ovo? Como é voar? Eu sou gente porque nasci de pessoa humana. Mas bem poderia ter nascido de bicho, filha do gato, do sapo, do macaco, do pato. Como é ser filho de um pato?
Lúcia se sente fêmea enquanto seus seios crescem e endurecem. O baixo ventre parece ser o de um bebê de 3 meses, mas seu ovo tem apenas 1 mês e meio. Estranha serenidade a percorre. Vontade de ler, ler, ler, andar, andar, andar, cozinhar, cozinhar, cozinhar. Sede. Muita sede. E tesão pelo vento que sopra.
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