terça-feira, 23 de setembro de 2008
The Giant and the Dragon
When he grew up, he actually became a giant. Girls like giants but he was too shy to take advantage of it. His legs were very long, so as his back and shoulders. He was then sent to another prison, where he was trained to become a soldier. There, they took away his heart as a drastic measure to kill freedom in him. Since then, he has a big hole in the middle of the chest. This proved to be useless though, because he had already been in the land of eternal present, where he ran and played and tasted freedom in its pure form. Freedom had been irreversibly inscribed in all his cells.
Finally he managed to escape and decided to move to another continent, a land also full of saints, angels, gods and ghosts. He decided it was time to be free. So he began to travel around to see if he could find a place to live freely and peacefully.
That’s when I met the giant. He was wandering round and round and I invited him to come to my place. In the first night he couldn’t sleep and he was so big he didn’t fit in the bed. He was also afraid of the ghosts that haunt my house. I don’t really know why, but he stayed in.
In the mornings, when he is having breakfast still sleepy he regularly spills out the milk or the coffee with his clumsy arms. He takes a special medicine to control the body shakes provoked by the immense freedom he has locked inside him. I think he needs to rest for a while. He is looking for a path which has a heart in it and it is not an easy task for anyone. He is very fragile, has a beautiful smile and likes to drink bitter liquids and eat raw fish. He told me he has a dragon hidden inside.
When he meets with this dragon he will be finally able to fly.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
YES! Nós temos ingressos para o show da Mart'nália.
Por aí na noitada
Me acabando de rir
Se eu disser que não digo
E não ligo e que fico
Só vou aprontar...
(...)
É que eu sambo direitinho
Assim bem miudinho
Cê não sabe acompanhar
Vou arrancar tua blusa
E por no meu cabide
Só prá pendurar
Quero ver
Se você tem atitude
Se vai encarar...
Chega de fazer fumaça
De contar vantagem
Quero ver chegar junto
Prá me juntar, eh!
Me fazer sentir mais viva
Me apertar o corpo e a alma
Me fazendo suar
Quero beijos sem tréguas
Quero sete mi'léguas
Sem descansar
Quero ver
Se você tem atitude
Se vai encarar..."
Pra não dizer que não falei das rosas
no Largo do Machado
ainda estão vivas.
Hoje é quarta-feira
Nunca compro rosas.
Prefiro margaridas, begônias, flores do campo
Mas estas rosas estavam tão
irresistivelmente lindas naquele balde sujo na calçada da rua do Catete
que eu precisei tê-las.
Trouxe-as para casa envoltas
num pedaço de jornal velho.
E elas retribuiram meu gesto
permanecendo vivas
Até hoje, quarta-feira.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Deixar-se entalhar pela madeira
- E quando descobrimos que as possibilidades daquela madeira são muito limitadas? E quando a madeira tem, de fato, muito pouco para dar? E quando suas lindas tramas seduzem, mas não mais encantam? O que acontece quando aquele mundo outrora repleto de promessas simplesmente não oferece mais nada do que o artista deseja?
- Quando o artista não se emociona mais com aquela madeira, é hora de deixá-la pra trás. Hora de parar, ficar quieto, observar ao redor. Às vezes ele está caminhando e topa de repente com uma bela madeira nova. Às vezes, ele tem que partir em longas expedições até encontrá-la. Mas ele só tem como saber que é aquela madeira que procurava depois de arriscar conhecê-la. Como eu disse, é tudo uma questão de tempo e intimidade. Só ganhando intimidade com a madeira que ela vai mostrar todas as possibilidades que contém dentro de si, as tramas escondidas. Ele pode encontrar coisas maravilhosas e é claro que vai topar com entraves e limites. Mas se tiver medo e evitar ser íntimo, simplesmente nunca vai saber se encontrou o que procurava. Arrisca jogar fora a madeira certa ou perder muito tempo com a errada. Então é certo que a madeira é a matéria-prima do artista. Mas o artista de verdade também é matéria-prima da madeira. Deste encontro, ele retira forças e coragem para se deixar entalhar por ela.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Gente é que nem madeira
Jaco:
- Uma coisa que eu aprendi é não esperar das pessoas uma coisa diferente do que elas podem dar. Todo mundo tem algo pra dar, alguns mais, alguns menos. E você tem que captar o que é que cada um tem pra oferecer. E pegar, e receber. É que nem quando faço escultura com madeira: você não pode querer tirar dela algo que ela não tem, algo que não tá dentro daquelas possibilidades.
- E se você cismar que quer porque quer um formato tal?
- Não se faz o que se quer com a madeira. Se você resolver que quer fazer uma escultura toda vazada, pode ser que a madeira não resista, que ela rache ou quebre.
- E como faz pra saber se vai dar para fazer o que tá na sua cabeça?
- É que nem com as pessoas: uma questão de intimidade. De conhecer o outro, o jeito de ser do outro, as manias do outro. E isso só com o tempo. Tem que conviver, testar, ver os limites, as possibilidades. Experimentar, arriscar. Tem que estar atento às tramas e nós da madeira. Você vai sentindo, conhecendo, ganhando intimidade e o resultado nunca é exatamente como você imaginou. Não é nem mais você, nem a madeira. É uma outra coisa.
- E o que é essa outra coisa?
- Essa outra coisa é o novo.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Lança-chamas
São letras tóxicas
a imprimir pressa
ao teu fluxo de sangue
que por mim atravessa
São letras vivas
que lançam chamas
Teu corpo-lava
meu seio-cama
No ponto de ebulição, a vida se congela.
E nossas mãos tremem de desejo e medo.
Escrevo essas palavras
para decifrar um segredo.
domingo, 3 de agosto de 2008
Solução marinha
Volto como se nunca tivesse partido. A mala se desarruma sozinha: sandália, short, camisola, brincos - miudezas que me fazem acreditar que sou eu e não outra. As minhas coisas. A blusa verde de volta ao armário, as brancas à gaveta, o livro à cabeceira. O CD de volta ao som. O cigarro sobre a mesa. O banho quente. A certeza. Cheguei de viagem. Fui ao encontro do mar e recebi um abraço feito de água onda espuma sal. Quando vi, eu era água onda espuma sol. Solução marinha. Voltei pela primeira vez de um lugar para onde sempre fui. Eu não conhecia o mar. Ele é um homem que abraça forte e beija doce, sabia? Só queria brincar, mas fui fisgada. Feito peixe olhos vidrados corpo transparente. Amar, afogar-se fora d’água.
terça-feira, 29 de julho de 2008
XLI
Para que as mãos não cometam
Os atos derradeiros:
Envolveremos as facas e os espelhos
Nas lãs dobradas, grossas.
E de alongadas nódoas, o ressentimento.
Pintadas as caras num matiz de gesso
Recobriremos corpo, carne
Na tentativa cálida, multiforme
Na rubra pastosidade
De um toque sem sofrimento
E afinal
Cara a cara (espelho e faca)
De nossas duplas fomes
Não diremos."
(Hilda Hilst. XLI. Do amor).
terça-feira, 22 de julho de 2008
segunda-feira, 21 de julho de 2008
História da Minha Vida (1)

"Busquei outrora a luz nos domínios da psicologia. Era absurdo. Quando compreendi que essa luz estava dentro de princípios e que esses princípios estavam em mim, sem de mim ter nascido, pude, sem grande esforço e sem mérito, alcançar uma perfeita paz de espírito. A do coração não a consegui, nem a conseguirei jamais. Para os que nasceram compassivos haverá sempre, sobre a terra, algo a amar e, conseqüentemente, a deplorar, a sofrer e a tolerar. Não devemos, pois, em qualquer idade que seja, buscar a ausência da dor, da fadiga e do medo, pois isso importaria em insensibilidade, em fraqueza, em morte antecipada. Quando aceitamos um mal incurável suportamo-lo melhor". (George Sand, História da Minha Vida, 1856, vol. 1, p.12)
Diz Tal:
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Era isso o que temia
Ter de ser poeta
Ter de fazer poesia
Era isso o que temia
Expor a dor que me habita
Sem retorno, sem garantia
Era isso o que mais temia
Enveredar por um caminho
E aportar numa ilha sombria
Me perder pela estrada
Mergulhar num vão sem água
Entregar sem pedir nada
O que é meu em demasia
domingo, 15 de junho de 2008
Um domingo
livros, papéis, jornal
café, cigarro, brilho labial
uma conta a pagar
o balanço do condomínio
o lento despertar
Ao longe:
violão do vizinho
o som do batuque
filete d'água
passarinhos
No chão:
sandálias da noite anterior espalham-se exaustas.
No peito:
filete de coração liquidificado mancha a blusa.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Havia uma força.
Por vezes cruel.
Por vezes brutal.
Afaste-se, risco de vida.
Ouviam-se gritos.
Trocavam-se olhos.
Uma fenda aumenta a cada encontro.
- Quero mais. Mais. Mais. Mais.
Amanheceu
Sentia fome, sede e frio.
Sorvi o café amargo
em pequenos goles de meio-querer.
Anoiteceu
- Quero mais.
Encontro
Fenda
Olhos
Gritos
Dor
Risco de vida
Alta voltagem
Cruel
Havia uma força.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Linha de impedimento
A rua não é feita para dois
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
No dia em que nasci, meu pai olhou pela janela da maternidade:
“Quando ela crescer, não existirá mais esta favela”.
“Quando ela crescer, todos terão uma casa”.
“Quando ela crescer, o mundo será nosso”.
Hoje, trinta anos depois, ele olhou de novo pela mesma janela.
Os olhos de meu pai não brilham mais.
sábado, 29 de setembro de 2007
Quem me dera me transformar em vampira
Um dia eu nasci. E cresci. E comecei a ver televisão.
E um dia eu vi um desenho animado de terror que tinha uma múmia, um drácula, uma mula-sem-cabeça, uma bruxa e uma vampira. Quando o desenho acabou, eu adorei a vampira e falei para mamãe:
- Mamãe, quero ser vampira!
E minha mãe respondeu:
- Ah, minha filha, não existe nem nunca existiu vampira!
Depois eu fui ver televisão (outra vez) e vi no Jornal Nacional que encontraram um país desconhecido. O nome do país era Trans-Silvânia. E nesse país tinha múmias, dráculas, mulas-sem-cabeça, bruxas e vampiras. E falaram que quem fosse lá, iria virar vampira (só vampira). Eu pensei em ir para esse país desconhecido, mas minha mãe não iria deixar. Mas aí eu tive uma idéia:
- Já sei! Esta noite, vou fugir de casa.
De noite, eu saí de casa e encontrei meu irmão, que tinha passagens para Trans-Silvânia. No aeroporto, entrei no avião e fui para Trans-Silvânia. Quando cheguei lá, virei vampira. (Meu sonho foi realizado!)
Eu era assim: dente afiado, sem língua, cabelos compridos e um vestido vermelho até os pés. Chegando lá, me mostraram onde era o castelo assombrado. Quando entrei no castelo, notei que o chão era feito de teias de aranha. Mas eu nem liguei, já que eu era vampira e estava acostumada.
Lá nesse castelo a gente só envenenava as coisas e bebia sangue com fogo. Um dia eu fui passear num bosque onde só tinha assombração. Eu me senti feliz naquele lugar. Porque lá não tinha mãe pra mandar na gente.
Rio de Janeiro, 13 de maio de 1986. Caderno de Criação de Texto. 1ª série.
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
AMÁ-LA
O táxi pára em frente ao terminal de embarque doméstico. O motorista sai do carro, retira as malas do bagageiro e as coloca no chão do aeroporto. O casal divide o valor da corrida.
Bruno observa a mala de Lúcia:
- Que linda tua mala!
Lúcia, sorrindo, puxa a mala de rodinhas para dentro do saguão.
Bruno:
- Cor-de-laranja, você é mesmo um charme!
Estalinho nos lábios de Lúcia. Entram na fila do check in. Riem. Abraços e carinhos. Viajantes entediados observam o casal feliz.
Cena 2 – O pensamento
Na aeronave, à espera da autorização para a decolagem. O casal de mãos dadas, lado a lado. Lúcia, olhando as asas do avião:
- (Posso morrer daqui a pouco. Se for hoje, morrerei satisfeita com minha vida?)
O cheiro acre e penetrante da aeronave embrulha o estômago de Lúcia.
Bruno, folheando disciplicentemente uma revista de bordo:
- (...)
- (Em que estará pensando agora?)
Cena 3 – O peso
O avião pousa. Lúcia:
- Lindo, como vamos para a casa dos teus irmãos?
- Há um ônibus que pára a três quadras do prédio. Temos pouca bagagem, será simples.
Lúcia sobe no ônibus carregando a própria mala:
- (Está um pouco pesada).
O trocador a ajuda a passar pela roleta.
Descem. As rodinhas da mala por vezes travam nos sulcos das calçadas irregulares por onde andam. A mala tomba para o lado, mas Lúcia consegue mantê-la andando.
Cena 4 – A escada
- O prédio não tem elevador?
- Não. São só dois lances de escada.
Lúcia carrega a mala com certa dificuldade.
- Bruno, você pode me ajudar?
Ele fecha a cara e arrasta a mala laranja escada acima.
Lúcia, encantada com o apartamento dos irmãos de Bruno:
- Que cômodos amplos!
Trepam sob a ducha do banheiro de ladrilhos antigos.
Sobre o botão da descarga um pequeno cartaz escrito à mão com pilot vermelho: ‘Evite entupimentos: não jogue o papel na privada e aperte o botão até o final’.
Cena 5 – A festa
- Vovó, esta é minha namorada, Lúcia. Ela veio especialmente para os teus noventa anos.
- Parabéns, dona Lenny. É uma data muito especial. A senhora está muito bem. Que lindo vestido!
- Obrigada por terem vindo.
- Vovó, a Lúcia sabe falar alemão. Lú, fala aí alguma coisa pra vovó.
- Ai, Bruno, deixa disso... faz tempo que não pratico...
A velha tira os óculos de leitura e olha bem para Lúcia:
- Mas sua namorada não tem cara de que fala alemão!
Os alemães mais velhos da colônia comem, bebem e conversam sem sorrir. Lúcia saboreia a carne sangrenta, está no ponto em que gosta. Antes de ir embora, vai ao banheiro, se olha no espelho de corpo inteiro e se acha bonita.
Cena 6 – Sob o fundo cinza do céu
Depois do almoço, Bruno e seus irmão irão mostrar a Lúcia a serra onde vivem os colonos alemães. Nuvens baixas. Choverá a qualquer momento e a floresta de pinus desaparecerá. Uma renda de gotículas d’água cobrirá a torre da igreja do vilarejo. Um cemitério colorido despontará no horizonte. Fascinada, Lúcia pedirá para descer do carro e dirá:
- Como é lindo!
Aproximar-se-á dos jazigos. Flores de plástico de todos os tipos e tamanhos decorarão os túmulos de mármore. Rosas amarelas para Ottilie Becker (9-01-1926 † 13-06-1932), gerânios azuis e florzinhas lilazes sobre Silvania Heinen (24-01-1938 † 05-07-1939), hortênsias vermelhas para Ana Carolina Rohlfes (15-01-2005 † 15-01-2005).
Cores vivas de plástico inerte reluzirão sobre o leito das meninas mortas.
Cena 7 – Conversa no restaurante
- Não gostei quando você me pediu para eu carregar tua mala.
- Por que não, Bruno?
- Porque isso é muito machista – “o homem deve carregar a mala da mulher”. Esse tempo já passou.
- Não é machista, é uma questão de gentileza com quem você gosta.
- Mas eu não quero segurar tua mala. Carreguei no primeiro dia a contragosto.
- Você carregou só para subir a escada e só porque eu pedi.
- Pois bem, não quero mais a mala.
- Mas é uma mala leve, de rodinha. Você mesmo comentou que gostou dela.
- A mala é tua. Não sou obrigado a carregá-la.
- Mas por que você está invocando este assunto da mala justo agora?
- Porque me incomodou você querer que eu leve tua mala.
- Mas eu continuo querendo que você leve a minha mala.
- Você não pode querer isso.
- Claro que posso. Posso querer o que quiser.
Cena 8 – No táxi
- Chegamos. Vamos subir? Lúcia, você não vai descer do táxi?
- Motorista, espera aqui embaixo que eu vou lá em cima pegar minha mala.
domingo, 4 de março de 2007
Antropofagia
- Quer de volta? Vem buscar!
Ovos de Codorna
Pegou o ovo de codorna cozido com as pontas dos dedos e cravou as unhas com cuidado na extremidade mais arredondada. Arrancou um pequeno pedaço, mas a pele ficou grudada. Lenhou, então, o outro lado e desta vez conseguiu tirar a pele e a casca ao mesmo tempo. Mordeu os lábios com satisfação. Fez uma pequena pressão com os dois dedos e provocou pequenas rachaduras. As unhas se encaixaram por entre os fragmentos grudados e sacaram fora quadrados amarelos com pintinhas pretas. Livrou-se dos restos na água parada da pia. “Até que eu não sou tão ruim para isso”. Puxou com vontade uma pele grudada e fez a gema brotar pra fora. Mordeu os lábios com raiva. Repetiu a operação mais cinco vezes e colocou os ovos de codorna sobre a alface da salada com as faces mutiladas voltadas para baixo. Levou a travessa para a mesa com os olhos baixos, a qualquer momento seria descoberta.- Que bela salada!
Lúcia ruborizou e abriu a latinha de cerveja. Estava quente.
- Você sabe como nós sentimos falta das suas visitas e do molho de salada que só você sabe fazer, né filha?
- Você está namorando alguém, Lúcia?
- Não, mamãe, não estou namorando.
- Você não acha que já passou da idade para só ficar?
- Depende do que você entende como ficar.
- Vocês duas já vão começar?! Trégua, pelo-amor-de-deus, pelo menos no almoço de domingo.
- É só preocupação, nada demais. Quando a gente quer bem aos filhos, a gente se preocupa, é natural. Um dia você vai ser mãe e saberá.
- Vocês não acham que eu passei da idade para ter pais preocupados comigo?
- Não precisa ser ríspida com a tua mãe.
- Passa a salada? Lúcia, você esqueceu de pôr vinagre na água onde ferveu os ovos de codorna...
- Vinagre? Para quê?
- Para não estourarem, olha como ficou, tudo lascado. Imagina se tivéssemos visitas! E não era para você ter usado a panela de esmalte para ferver os ovos. Você não lembra que há uma panelinha só para isso?
- Não.
- Você está muito desatenta, querida. Seu pai também está preocupado contigo, pediu para você apagar o fogo do aipim e você esqueceu.
Lúcia engoliu o almoço, dirigiu-se ao seu antigo quarto, fechou a porta, respirou fundo e acendeu um cigarro. Estranha sensação de voltar àquele quarto, que já não era mais dela e nem era outra coisa. Decidiu entrar na internet.
Nenhuma mensagem nova.
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
Salão Azteca
Não quis tomar banho. A expressão no espelho era desalentadora. Não vou poder procurar trabalho hoje. Isso não é cara de quem quer arranjar um emprego. Lúcia precisa de dinheiro para pagar sua parte do aluguel. Mas sabe que deve estar bem disposta e com boa aparência para conseguir um bico. Vou ao salão fazer a unha.
Não quis acordar o namorado para não ter que tomar café junto com ele. Todo dia era o mesmo ritual: para alcançar o pote de café em cima do armário era obrigada a pegar um banco, subir e se esticar toda. O pote não cabe em outro lugar da cozinha, simplesmente porque não há espaço livre naquele cubículo. Recostou a porta do quarto para ele não a ver tomando café sozinha. Para ele não ver sua cara de culpa e satisfação por não tê-lo acordado. Pegou o pão torrado, cobriu-o com uma margarina velha e o mastigou. Pensamento em nada, o gosto seco na boca.
O café premium não é tão bom, avaliou. Foi ao quarto ver as horas e deu um beijo na testa do namorado, que se virou indiferente enrolando-se no edredon puído. Lúcia dirigiu-se ao banheiro para lavar o rosto e tentar se aliviar. Não conseguiu. Pegou seu lápis de olho na bolsa e cuidadosamente fez um traçado fino sob os olhos. Penteou os cabelos revoltos. Não, ainda não estou com cara de alguém que vai ter uma oportunidade. Saiu.
No elevador, tentou reavivar a aparência passando um pouco de batom vermelho nas maçãs do rosto. Uma mulher gorda entrou com duas filhas pequenas dentro de maiôs com sainha segurando um balde de areia nas mãos. Mamãe, quando a gente volta para Pinheiral ? Só no mês que vem, quando recomeçarem as aulas. Lúcia tentou imaginar onde diabos ficaria Pinheiral. O elevador parou no térreo e as crianças insistiram: mamãe, eu não quero mais ficar aqui. Eu também não, aqui não tem nada pra fazer e além do mais, a praia do Flamengo é suja, disse a outra. Estão aqui de férias, concluiu Lúcia. Num apartamento de quarto e sala onde já mora um punhado de gente. Lúcia se transportou para dali a alguns anos e se viu mais velha, morando no mesmo cabeça-de-porco, a sala amontoada de parentes longínquos e criancinhas barulhentas, vindos de findomundópolis passar as férias de verão no Rio de Janeiro. É só não entrar na água, encerrou a mãe.
Fila do caixa automático do banco. Aposentados esperando para entrar. Pessoas normais, moradoras do Catete, ansiosas para sacar, depositar, emprestar, se endividar. Sob a fria luz bancária, um monte de velhos esperando que o banco lhes faça o favor de devolver o dinheiro descontado de um trabalho que lhes roubou a saúde. E que os faz ficar horas de pé para pegar de volta a quantia que mal vai servir para comprar os remédios e pagar o plano de saúde. Velhos são feios, pensou Lúcia. Sentiu repugnância pela feiúra generalizada daquelas pessoas. Uns fodidos. Involuntariamente olhou-se no reflexo da porta de vidro fumê do banco. Pálida. Sonolenta. Jovem envelhecida sacando quarenta reais no caixa eletrônico do Banco do Brasil. Lúcia teve um choque: Sou elas. Uma das pessoas normais. Uma das. Uma. Mais uma. Uma a mais.
Saldo devedor de oitenta reais. Poderia ser pior se tivesse feito aquela viagem. Caminhou rumo ao Salão Azteca, imaginando como seriam os rituais de beleza azteca. Será que os aztecas também arrancavam pêlos, cortavam arestas dos dedos, removiam calos e poliam os cascos para conseguir uma prestação de serviço? Estava vazio quando chegou, apenas uma chinesa falando português com sotaque carioca e fazendo a unha com a sua manicure azteca.
Lúcia nem viu Val fazendo sua unha. Num salão sem clientes, as manicures pintavam-se mutuamente as mechas e divertiam-se com as transformações que inventavam para si mesmas. Dalva, que há duas semanas era uma ruiva de cabelos encaracolados selvagens, hoje estava em vias de se tornar uma loura insinuante de cabelos curtos cuidadosamente escovados. Aplicavam cremes, escovas e chistes umas nas outras. Zuleima, tentando encaixar a touca térmica na cabeça, revelou às colegas que sonhara estar namorando outro. Joga na borboleta, sugeriu Silvana, com um sorriso maroto. Ou na cachorra, emendou Val.
Lúcia se indagava em pensamento se as manicures teriam carteira assinada. Devem ter. Silvana, manicure branca orelhuda dos olhos miúdos pretos e cabeça chata se aproximou de Lúcia e, sem rodeios, perguntou: o que houve? A senhora está tão abatida! Muito trabalho, respondeu Lúcia, séria. As duas se entreolharam. Silvana solidarizou-se e contou-lhe que trabalhara tanto em dezembro que na noite de natal quase desmaiara de cansaço. Lúcia pensou em como adoraria ficar exausta de tanto trabalhar. E agora ainda tem a minha filha, que tá com oito meses, então estou mais cansada ainda. A senhora tem filhos, Dona Lúcia? Não. Silvana mostrou a foto da filha e tascou um beijo no porta-retratos posto em frente à sua cadeira de trabalho. É casada, Dona Lúcia? Também não.
Silvana sentiu pena de Lúcia e não teve coragem de perguntar mais nada. Breve silêncio. Resolveu, então, que seria melhor contar sobre sua vida, para distrair Lúcia do fato dela não ter uma. Sabe, eu tive um namorado e depois fui noiva durante sete anos. Acabou. Aí, eu conheci esse que hoje é meu marido. Fui morar junto com ele depois de dois meses. Assim, vapt-vupt. Ele disse vamos morar juntos pra experimentar, se der certo a gente casa. E estamos juntos há cinco anos e meio. Ele já tinha três filhos de dois casamentos anteriores. O salário dele vai quase todo pra pagar pensão. Ter dois filhos hoje em dia não dá mais não. Filho é gasto. E acrescentou, num tom confessional: Por isso ele fez vasectomia. Nessa hora, suas bochechas sardentas coraram.
Lúcia, temendo pela seqüência da conversa com a boneca de porcelana do sertão, agarrou a primeira revista que viu. Chamava-se Quem. Quem o quê?, pensou. Quem, solto assim, não quer dizer nada. Se ainda tivesse um ponto de interrogação já significaria algo: que a pessoa não sabe e quer saber: quem? Mas Quem, com letra maiúscula e sem pontuação, não, isso não está certo. E seguiu lendo Quem febrilmente, como se ali fosse encontrar alguma resposta para sua inexistência.
Numa das páginas centrais, estancou seu olhar numa foto de página dupla, flagrante da relação falida de um casal de famosos. Sentados nos bancos da frente de um carro, ela, atriz-modelo fora de forma, cara amarrada e blusinha de babado; ele, inchado, a pele gordurosa brilhando com o flash. Olhar de ódio mútuo, sem suspeitas do flagrante de sua intimidade infernal. O fim do casal do ano estampado nas páginas de Quem. Para quem quiser comprar e se deliciar com a miséria alheia ou para quem acredita que a miséria é alheia. Não estivesse num salão de beleza, Lúcia teria se emocionado. Que foto!, pensou.
Sentiu então um grande alívio de não ser ela naquela foto, com aquele homem, aqueles babados infantis, aquela pele suada, o ar irrespirável daquele automóvel. Ai, que bom que existe Quem. Sentiu-se bem disposta, quase feliz. Unha feita, olhou-se no espelho, ajeitou o cabelo, batom nos lábios, uma gorjeta para a manicure. Talvez consiga uma vaga temporária hoje.

