sábado, 18 de abril de 2009

"Não havia como não aceitar o que acontecia pois para tudo o que pode acontecer um homem nascera." (p.58)
"E se, no seu entorpecimento, grosseiramente reconheceu aquele instante na montanha, foi apenas porque uma pessoa reconhece o que deseja." (p. 53)

A veemente felicidade do céu aumentava em peso o coração estranho

Havia uma gravidade em estar ali que ele próprio não compreendia. Mas a cujo sentido desconhecido ele correspondeu com o rosto que um homem tem quando o vento e o silêncio lhe batem no rosto. De algum modo, pois, não era mentira! Porque, vacilante de cansaço, ele estava ali de pé como se um homem tivesse uma professia dentro de si. De pé, com as pernas enraizadas de cansaço, com uma trêmula avidez dentro de si como um homem que vai aprender a ler. E à beira de sua mudez, estava o mundo. Essa coisa iminente e inalcançável. Seu coração faminto dominou desajeitado o vazio." (idem p.52)
"O bom de um ato é que ele nos ultrapassa".(idem, p. 36)

Sobre tornar-se o que se é

"Aquela coisa que ele estava sentindo devia ser, em última análise, apenas ele mesmo. O que teve o gosto que a língua tem na própria boca. E tal falta de nome como falta nome ao gosto que a língua tem na boca. Não era, pois, nada mais que isso.
Mas, a essa coisa, uma pessoa ficava um pouco atenta; e ficar atenta a isso era ser. Assim, pois, no seu primeiro domingo, ele era.
O que, no entanto, começou a ficar um pouco intenso." (Lispector, A maçã no escuro, p. 32)

terça-feira, 14 de abril de 2009

But I can't help the feeling
I could blow through the ceiling

sábado, 11 de abril de 2009

Sexta-feira da paixão


Toda sexta-feira da paixão é a mesma coisa. As paixões adormecidas insistem em se reacender dentro de Lúcia. E não há nada que ela possa fazer contra isso. Um dia ela leu que há pessoas que morrem de auto-combustão. Estão velhas, sentadinhas calmamente em sua poltrona preferida, o pensamento vagando. Vem a lembrança de uma paixão passada, um fragmento, uma faísca. É o suficiente. O incêndio vai se alastrando aos poucos pelo corpo. De dentro pra fora, em ondas cada vez mais intensas de calor. A pessoa morre a mil graus centígrados de puro nirvana. No dia seguinte, os vizinhos sentem um cheiro de queimado, chamam os bombeiros e descobrem as cinzas em frente à TV. Causa mortis: paixão auto-incendiária.

Lúcia finalmente está conseguindo escrever o primeiro capítulo da saga. Enquanto a escrita brota dos seus dedos, ela chora em silêncio. Está contando da vida de Jaco na fazenda de gado, a tristeza daquele lugar longe de tudo, as campinas sem fim, a amizade com as árvores, a conversa com a mãe ao pé do fogão a lenha, no escuro da casa de pau a pique, o aroma doce da madeira queimando. Lúcia chora de saudades da mãe preta de olhos puxados que nunca teve. Dona Benedita. E a água que corre dos seus olhos tem o gosto do mangue do rio Itanhém.

Lúcia não consegue mais escrever. É preciso sair, ver os amigos, dançar. A gafieira está repleta de gente, mas num determinado momento ela lembra da solidão de Jaco e de Dona Benedita naquela fazenda. E sente-se só, terrivelmente só naquele ambiente povoado de gente que nunca pisou num mangue. Que nunca viu um quero-quero.

Pegou um táxi e foi para casa. No dia seguinte, quando despertou, entendeu. A verdade transparente a assaltou com a força e a simplicidade de uma constatação. Ainda quero quero você. Não é mais possível negar, se enganar, dizer que faz tempo que passou, que está superado. Três anos e meio. Tenho que parar de inventar para mim mesma uma sanidade que não tenho. Era uma constatação simples e clara: aquele querer ainda a habita. Já esqueceu da existência dele, já amou outros, já foi feliz e triste depois. Mas aquele querer, aquele, nunca a havia deixado.

Lembrou que era dia de Cosme e Damião. Lembrou que brincara a manhã inteira com as crianças e descobrira um ninho de quero-quero. Lembrou das botas de borracha que ela usava para andar pelos espraiados do rio e que ele achou cômicas. Lembrou de tudo o que não foi dito. Lembrou do beijo inesperado mais esperado da história, da camisa vermelha suada com o calor daquela hora da manhã. Da volúpia atrás da árvore num recanto improvável do sítio. A pulsação daquele braço forte que a apertava com força. O encantamento dos olhos em brasa. E, sobretudo, o grito do quero-quero. O grito do quero-quero em pleno vôo afirmando com força sua liberdade incondicional.

Eu te quero quero sim. Eu te quero quero muito. Que mal há nisso?

Eis a descoberta de Lúcia. Não teve curandeiro, nem exorcismo que conseguisse tirar ele de dentro dela. Porque o fato é que estás presente, quer eu queira, quer não. E a sensação de vitalidade que acompanha nosso encontro estranhamente permanece.

Quando abriu os olhos, Lúcia viu que ele se transformara num quero-quero. E envolta em suas asas, ela começou a voar.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Oi Aninha,
Foi muito divertido, "dancemos" muito! O som estava ótimo, tinha vários amigos, mas teve uma hora em que me senti só, terrivelmente só naquela pista de dança povoada de gente. Nada demais. Peguei um taxi e vim pra casa. Cineminha hoje?
Beijos

quinta-feira, 26 de março de 2009

"Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem"
This is what you get
This is what you get
This is what you get
when you mess with us

quarta-feira, 25 de março de 2009

Estrondos e estilhaços lá fora
Enquanto
Algo se aquieta cá dentro

No alarms and no surprises

O mundo em vibração mínima
e suave

No surprises

Radiohead

A heart that's full up like a landfill
A job that slowly kills you
Bruises that won't heal

You look so tired and unhappy
Bring down the government
They don't, they don't speak for us
I'll take a quiet life
A handshake of carbon monoxide

No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
Silent silence

This is my final fit, my final bellyache with

No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises please

Such a pretty house and such a pretty garden

No alarms and no surprises (let me out of here)
No alarms and no surprises (let me out of here)
No alarms and no surprises please (let me out of here)

Sobre todos aqueles cuidados que são muitos

Não sou nem quero ser calma
Não tenho nem quero ter cuidados

Que se foda o comedimento

Quero quem vibra

Viver
O único pensamento

terça-feira, 24 de março de 2009

"Mas é certo que na desordem de um primeiro encontro houve um momento em que os dois, enfim esquecidos do que penosamente queriam copiar para a realidade, houve um momento não preparado por ambos, dom da natureza, em que ambos precisaram saber porque o outro era o outro, e se esqueceram de dizer "por favor"; um momento em que, sem um injuriar ao outro, cada um tomou para si o que lhe era devido sem que um roubasse nada do outro, e isso era mais do que eles teriam ousado imaginar: isso era amor, com o seu egoísmo e sem este também não haveria dádiva. Um deu ao outro a avidez de ser amado, e se havia certa tristeza em submeter-se à lei do mundo, esta obediência também era a dignidade deles. Era o egoísmo que se dava inteiro. E como se na moça o desejo de presentear fosse maior do que o que ela tivesse a presentear, ela não sabia o que lhe dar, ela se lembrou de mães que dão aos filhos, e ela não se sentia maternal com aquele homem, mas com a grande força do irrazoável também queria lhe dar, somente para enfim ultrapassar o que se pode e enfim quebrar o grande mistério de se ser apenas um". (Clarice Lispector, A maçã no escuro, p.163)
If I could be who you wanted
If I could be who you wanted
If I could be who you wanted
If I could be...

segunda-feira, 23 de março de 2009

Mensagens que eu gostaria de receber no celular II:

Your skin makes me cry

Mensagens que eu gostaria de receber no celular I:

You're so fucking special
Quero amar amor de verdade que dá arrepios e mete saudade

O que se procura nunca se acha

Ele pensava
que ela era
Madre Teresa de Calcutá
com Marie Curie

E levou um susto
quando descobriu
Teresa Batista Cansada de Guerra
com Marie Claire
"Nenhuma areia que margeie esta saudade" (Alberto Pucheu)

"Hoje, nem que seus olhos rebentassem, eles veriam"

Ver com os olhos vivos
Ver o que não se quer
E não fechar os olhos
Abri-los ainda mais
para ver melhor
e se deixar afetar
pelo que foi visto

E colocar os óculos
para ver mais longe
E abrir os ouvidos
para ver além
E provar o gosto
para ver com a língua
E sentir o cheiro
para ver com os pulmões

Vejo de olhos fechados

Porque de olhos abertos
sou completamente cega

São Paulo, 17 de março de 2009.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Equação

Acordou e olhou para o teto. Branco. Olhou para o lado da cama. Vazio. Demorou alguns segundos para entender quem era e o que fazia naquele lugar. Sim, sou a Lúcia. Esta é a minha cama, hoje é domingo, está fazendo sol e estou sozinha. Viu-se assim muitos domingos, passados e futuros. Não ficou triste. Nem tampouco feliz. A sensação era idêntica à que tinha quando menina na escola - era como entender uma equação matemática que terminava em número racional. Ah, sim, entendi, é assim. Sensação reconfortante saber o porquê das coisas serem como são. Já os números irracionais e indeterminados eram aquele mistério. A professora de matemática fingia que entendia e terminava o assunto alegando que só "mais tarde, na faculdade, vocês vão aprender". Lúcia nunca entendeu, mas sempre amou aqueles números loucos que terminavam em reticências ou em "tende ao infinito".
Olhando para o teto, lembrou da Bela Adormecida, seu conto de fadas preferido. Ela o tinha num livro ilustrado com fotos de bonecos vestidos como as personagens, o que criava uma atmosfera aterrorizante para a corte do palácio onde todos dormiram por cem anos. Até que um dia, um príncipe encantado chegou ao reino com seu cavalo branco e despertou a princesa do sono profundo com seus beijos mágicos.
Lúcia levantou-se e foi fazer café.

domingo, 16 de novembro de 2008

Novembro tem mais duas semanas

Algo morreu dentro de Lúcia enquanto o cheiro da carne assada se espalhava pela casa e temperava o ar. As coisas voltaram a ser as mesmas. A menstrução chegou com atraso. E se estivesse grávida?. As coisas nunca mais seriam as mesmas. Novembro tem mais duas semanas. Estou sem grana e preciso trabalhar bem nos próximos meses. Seria bom estar fora durante as festas. Fugir da alegria obrigatória. Viajar com pouco e com pausas para escrever. Ela sabe que, no fundo, escrever não depende de onde você está, mas de como se está. Delicada tessitura que independente de você. Ver o Pacífico pela primeira vez. Estar com ele e comigo. Minha avó não vive, dura. Eu mesma não vivo, duro. Viu a entrevista do ator na tevê falando da força do encontro com a própria vocação: "O desejo empurra o acaso para que o destino se cumpra". Teve vontade de dar um beijo na boca de. Teve vontade de ter mais vontade de tudo. O amor, onde está o amor? Como falar de coisas complexas de forma simples? A vida acadêmica apazigua as paixões. Eu as quero queimando. Quis afastar-se de tudo, como a câmera do filme das mulheres pobres que vão ao Pitangy que se afasta para ouvir a confissão. Do amor que não foi. Do homem que partiu com a sobrinha. Da vontade de arrancar um pedaço de si e ser outra. "Não vejo a hora de ter novas pernas!". Os dados estão presos no armário. O escritório é a parte mais exposta da casa. Lúcia plantou a raiz da rúcula num vaso com terra boa. Será que alguma coisa vai brotar? Decidiu acender uma vela para São Jorge. Eu não estou aqui, anotou no caderno amarelo. Alguma coisa me tira de mim. Novembro tem mais duas semanas.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Humor, gentileza, doçura.
Os três pré-requisitos básicos.
A vida é tudo ao contrário.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

The Giant and the Dragon

Once upon a time, there was a giant. He was born in a very old place, a land where all the saints, angels, gods and ghosts come from. Some say it is holy, some believe it is haunted. When he was a kid, he didn`t know he was a giant and played happily with all the other kids in the land of eternal present. But one day he woke up and saw himself in a carriage shielded by policemen. From the carriage, a policeman took him to a train center and from the train center he took him to a box. His days were all the same: carriage-train center-box-carriage-train center-box… He had been sent to this special prison because they found out he would be a future giant, which are not only known to be big, but sweet and courageous at the same time. The police decided to imprison him so that he wouldn’t learn what it is like to be free.
When he grew up, he actually became a giant. Girls like giants but he was too shy to take advantage of it. His legs were very long, so as his back and shoulders. He was then sent to another prison, where he was trained to become a soldier. There, they took away his heart as a drastic measure to kill freedom in him. Since then, he has a big hole in the middle of the chest. This proved to be useless though, because he had already been in the land of eternal present, where he ran and played and tasted freedom in its pure form. Freedom had been irreversibly inscribed in all his cells.
Finally he managed to escape and decided to move to another continent, a land also full of saints, angels, gods and ghosts. He decided it was time to be free. So he began to travel around to see if he could find a place to live freely and peacefully.
That’s when I met the giant. He was wandering round and round and I invited him to come to my place. In the first night he couldn’t sleep and he was so big he didn’t fit in the bed. He was also afraid of the ghosts that haunt my house. I don’t really know why, but he stayed in.
In the mornings, when he is having breakfast still sleepy he regularly spills out the milk or the coffee with his clumsy arms. He takes a special medicine to control the body shakes provoked by the immense freedom he has locked inside him. I think he needs to rest for a while. He is looking for a path which has a heart in it and it is not an easy task for anyone. He is very fragile, has a beautiful smile and likes to drink bitter liquids and eat raw fish. He told me he has a dragon hidden inside.
When he meets with this dragon he will be finally able to fly.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

YES! Nós temos ingressos para o show da Mart'nália.

"Se eu fingir e sair
Por aí na noitada
Me acabando de rir
Se eu disser que não digo
E não ligo e que fico
Só vou aprontar...

(...)

É que eu sambo direitinho
Assim bem miudinho
Cê não sabe acompanhar
Vou arrancar tua blusa
E por no meu cabide
Só prá pendurar
Quero ver
Se você tem atitude
Se vai encarar...

Chega de fazer fumaça
De contar vantagem
Quero ver chegar junto
Prá me juntar, eh!
Me fazer sentir mais viva
Me apertar o corpo e a alma
Me fazendo suar
Quero beijos sem tréguas
Quero sete mi'léguas
Sem descansar
Quero ver
Se você tem atitude
Se vai encarar..."

Pra não dizer que não falei das rosas

As rosas que comprei sábado
no Largo do Machado
ainda estão vivas.

Hoje é quarta-feira

Nunca compro rosas.
Prefiro margaridas, begônias, flores do campo
Mas estas rosas estavam tão
irresistivelmente lindas naquele balde sujo na calçada da rua do Catete
que eu precisei tê-las.

Trouxe-as para casa envoltas
num pedaço de jornal velho.

E elas retribuiram meu gesto
permanecendo vivas

Até hoje, quarta-feira.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Deixar-se entalhar pela madeira

- E quando descobrimos que as possibilidades daquela madeira são muito limitadas? E quando a madeira tem, de fato, muito pouco para dar? E quando suas lindas tramas seduzem, mas não mais encantam? O que acontece quando aquele mundo outrora repleto de promessas simplesmente não oferece mais nada do que o artista deseja?

- Quando o artista não se emociona mais com aquela madeira, é hora de deixá-la pra trás. Hora de parar, ficar quieto, observar ao redor. Às vezes ele está caminhando e topa de repente com uma bela madeira nova. Às vezes, ele tem que partir em longas expedições até encontrá-la. Mas ele só tem como saber que é aquela madeira que procurava depois de arriscar conhecê-la. Como eu disse, é tudo uma questão de tempo e intimidade. Só ganhando intimidade com a madeira que ela vai mostrar todas as possibilidades que contém dentro de si, as tramas escondidas. Ele pode encontrar coisas maravilhosas e é claro que vai topar com entraves e limites. Mas se tiver medo e evitar ser íntimo, simplesmente nunca vai saber se encontrou o que procurava. Arrisca jogar fora a madeira certa ou perder muito tempo com a errada. Então é certo que a madeira é a matéria-prima do artista. Mas o artista de verdade também é matéria-prima da madeira. Deste encontro, ele retira forças e coragem para se deixar entalhar por ela.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Gente é que nem madeira





Jaco:
- Uma coisa que eu aprendi é não esperar das pessoas uma coisa diferente do que elas podem dar. Todo mundo tem algo pra dar, alguns mais, alguns menos. E você tem que captar o que é que cada um tem pra oferecer. E pegar, e receber. É que nem quando faço escultura com madeira: você não pode querer tirar dela algo que ela não tem, algo que não tá dentro daquelas possibilidades.
- E se você cismar que quer porque quer um formato tal?
- Não se faz o que se quer com a madeira. Se você resolver que quer fazer uma escultura toda vazada, pode ser que a madeira não resista, que ela rache ou quebre.
- E como faz pra saber se vai dar para fazer o que tá na sua cabeça?
- É que nem com as pessoas: uma questão de intimidade. De conhecer o outro, o jeito de ser do outro, as manias do outro. E isso só com o tempo. Tem que conviver, testar, ver os limites, as possibilidades. Experimentar, arriscar. Tem que estar atento às tramas e nós da madeira. Você vai sentindo, conhecendo, ganhando intimidade e o resultado nunca é exatamente como você imaginou. Não é nem mais você, nem a madeira. É uma outra coisa.
- E o que é essa outra coisa?
- Essa outra coisa é o novo.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Lança-chamas

Tuas palavras perfuram a tela e se injetam em minhas veias.

São letras tóxicas
a imprimir pressa
ao teu fluxo de sangue
que por mim atravessa

São letras vivas
que lançam chamas
Teu corpo-lava
meu seio-cama

No ponto de ebulição, a vida se congela.
E nossas mãos tremem de desejo e medo.

Escrevo essas palavras
para decifrar um segredo.

sábado, 16 de agosto de 2008

E no abismo de nós
Havia sol e mel.

(Hilda Hilst. Cantares. XII)

domingo, 3 de agosto de 2008

Solução marinha

Volto como se nunca tivesse partido. A mala se desarruma sozinha: sandália, short, camisola, brincos - miudezas que me fazem acreditar que sou eu e não outra. As minhas coisas. A blusa verde de volta ao armário, as brancas à gaveta, o livro à cabeceira. O CD de volta ao som. O cigarro sobre a mesa. O banho quente. A certeza. Cheguei de viagem. Fui ao encontro do mar e recebi um abraço feito de água onda espuma sal. Quando vi, eu era água onda espuma sol. Solução marinha. Voltei pela primeira vez de um lugar para onde sempre fui. Eu não conhecia o mar. Ele é um homem que abraça forte e beija doce, sabia? Só queria brincar, mas fui fisgada. Feito peixe olhos vidrados corpo transparente. Amar, afogar-se fora d’água.

terça-feira, 29 de julho de 2008

A casa tá arrumada, não repara não tá?
Hoje foi dia de faxina.

XLI

"Faremos deste modo
Para que as mãos não cometam
Os atos derradeiros:

Envolveremos as facas e os espelhos
Nas lãs dobradas, grossas.
E de alongadas nódoas, o ressentimento.

Pintadas as caras num matiz de gesso
Recobriremos corpo, carne
Na tentativa cálida, multiforme
Na rubra pastosidade

De um toque sem sofrimento

E afinal
Cara a cara (espelho e faca)
De nossas duplas fomes
Não diremos."

(Hilda Hilst. XLI. Do amor).

terça-feira, 22 de julho de 2008

Shopgirl



Jeremy: I'll protect you. I will.




segunda-feira, 21 de julho de 2008

História da Minha Vida (1)


"Busquei outrora a luz nos domínios da psicologia. Era absurdo. Quando compreendi que essa luz estava dentro de princípios e que esses princípios estavam em mim, sem de mim ter nascido, pude, sem grande esforço e sem mérito, alcançar uma perfeita paz de espírito. A do coração não a consegui, nem a conseguirei jamais. Para os que nasceram compassivos haverá sempre, sobre a terra, algo a amar e, conseqüentemente, a deplorar, a sofrer e a tolerar. Não devemos, pois, em qualquer idade que seja, buscar a ausência da dor, da fadiga e do medo, pois isso importaria em insensibilidade, em fraqueza, em morte antecipada. Quando aceitamos um mal incurável suportamo-lo melhor". (George Sand, História da Minha Vida, 1856, vol. 1, p.12)

Diz Tal:

"Talvez alguém saiba mais do que eu, mas sabe o que é, hoje em dia eu não tenho certeza de que algúem realmente saiba alguma coisa sobre outra pessoa. Em geral. No mundo inteiro. Como se pode saber? Cada um vive na sua própria ilha. (...). Ninguém sabe nada sobre ninguém. Principalmente quando tem a ver com amor." (Amós Oz, Não Diga Noite, p.154)

(Estou entre parênteses)





segunda-feira, 14 de julho de 2008

Era isso o que temia

Era isso o que temia
Ter de ser poeta
Ter de fazer poesia

Era isso o que temia
Expor a dor que me habita
Sem retorno, sem garantia

Era isso o que mais temia
Enveredar por um caminho
E aportar numa ilha sombria

Me perder pela estrada
Mergulhar num vão sem água
Entregar sem pedir nada

O que é meu em demasia

domingo, 15 de junho de 2008

Um domingo

Sobre a mesa:
livros, papéis, jornal
café, cigarro, brilho labial
uma conta a pagar
o balanço do condomínio
o lento despertar

Ao longe:
violão do vizinho
o som do batuque
filete d'água
passarinhos

No chão:
sandálias da noite anterior espalham-se exaustas.

No peito:
filete de coração liquidificado mancha a blusa.