sábado, 18 de abril de 2009
A veemente felicidade do céu aumentava em peso o coração estranho
Sobre tornar-se o que se é
Mas, a essa coisa, uma pessoa ficava um pouco atenta; e ficar atenta a isso era ser. Assim, pois, no seu primeiro domingo, ele era.
O que, no entanto, começou a ficar um pouco intenso." (Lispector, A maçã no escuro, p. 32)
sábado, 11 de abril de 2009
Sexta-feira da paixão
Toda sexta-feira da paixão é a mesma coisa. As paixões adormecidas insistem em se reacender dentro de Lúcia. E não há nada que ela possa fazer contra isso. Um dia ela leu que há pessoas que morrem de auto-combustão. Estão velhas, sentadinhas calmamente em sua poltrona preferida, o pensamento vagando. Vem a lembrança de uma paixão passada, um fragmento, uma faísca. É o suficiente. O incêndio vai se alastrando aos poucos pelo corpo. De dentro pra fora, em ondas cada vez mais intensas de calor. A pessoa morre a mil graus centígrados de puro nirvana. No dia seguinte, os vizinhos sentem um cheiro de queimado, chamam os bombeiros e descobrem as cinzas em frente à TV. Causa mortis: paixão auto-incendiária.
Lúcia finalmente está conseguindo escrever o primeiro capítulo da saga. Enquanto a escrita brota dos seus dedos, ela chora em silêncio. Está contando da vida de Jaco na fazenda de gado, a tristeza daquele lugar longe de tudo, as campinas sem fim, a amizade com as árvores, a conversa com a mãe ao pé do fogão a lenha, no escuro da casa de pau a pique, o aroma doce da madeira queimando. Lúcia chora de saudades da mãe preta de olhos puxados que nunca teve. Dona Benedita. E a água que corre dos seus olhos tem o gosto do mangue do rio Itanhém.
Lúcia não consegue mais escrever. É preciso sair, ver os amigos, dançar. A gafieira está repleta de gente, mas num determinado momento ela lembra da solidão de Jaco e de Dona Benedita naquela fazenda. E sente-se só, terrivelmente só naquele ambiente povoado de gente que nunca pisou num mangue. Que nunca viu um quero-quero.
Pegou um táxi e foi para casa. No dia seguinte, quando despertou, entendeu. A verdade transparente a assaltou com a força e a simplicidade de uma constatação. Ainda quero quero você. Não é mais possível negar, se enganar, dizer que faz tempo que passou, que está superado. Três anos e meio. Tenho que parar de inventar para mim mesma uma sanidade que não tenho. Era uma constatação simples e clara: aquele querer ainda a habita. Já esqueceu da existência dele, já amou outros, já foi feliz e triste depois. Mas aquele querer, aquele, nunca a havia deixado.
Lembrou que era dia de Cosme e Damião. Lembrou que brincara a manhã inteira com as crianças e descobrira um ninho de quero-quero. Lembrou das botas de borracha que ela usava para andar pelos espraiados do rio e que ele achou cômicas. Lembrou de tudo o que não foi dito. Lembrou do beijo inesperado mais esperado da história, da camisa vermelha suada com o calor daquela hora da manhã. Da volúpia atrás da árvore num recanto improvável do sítio. A pulsação daquele braço forte que a apertava com força. O encantamento dos olhos em brasa. E, sobretudo, o grito do quero-quero. O grito do quero-quero em pleno vôo afirmando com força sua liberdade incondicional.
Eu te quero quero sim. Eu te quero quero muito. Que mal há nisso?
Eis a descoberta de Lúcia. Não teve curandeiro, nem exorcismo que conseguisse tirar ele de dentro dela. Porque o fato é que estás presente, quer eu queira, quer não. E a sensação de vitalidade que acompanha nosso encontro estranhamente permanece.
Quando abriu os olhos, Lúcia viu que ele se transformara num quero-quero. E envolta em suas asas, ela começou a voar.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
quinta-feira, 26 de março de 2009
quarta-feira, 25 de março de 2009
No surprises
A heart that's full up like a landfill
A job that slowly kills you
Bruises that won't heal
You look so tired and unhappy
Bring down the government
They don't, they don't speak for us
I'll take a quiet life
A handshake of carbon monoxide
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
Silent silence
This is my final fit, my final bellyache with
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises please
Such a pretty house and such a pretty garden
No alarms and no surprises (let me out of here)
No alarms and no surprises (let me out of here)
No alarms and no surprises please (let me out of here)
Sobre todos aqueles cuidados que são muitos
Não tenho nem quero ter cuidados
Que se foda o comedimento
Quero quem vibra
Viver
O único pensamento
terça-feira, 24 de março de 2009
segunda-feira, 23 de março de 2009
O que se procura nunca se acha
que ela era
Madre Teresa de Calcutá
com Marie Curie
E levou um susto
quando descobriu
Teresa Batista Cansada de Guerra
com Marie Claire
"Hoje, nem que seus olhos rebentassem, eles veriam"
Ver o que não se quer
E não fechar os olhos
Abri-los ainda mais
para ver melhor
e se deixar afetar
pelo que foi visto
E colocar os óculos
para ver mais longe
E abrir os ouvidos
para ver além
E provar o gosto
para ver com a língua
E sentir o cheiro
para ver com os pulmões
Vejo de olhos fechados
Porque de olhos abertos
sou completamente cega
São Paulo, 17 de março de 2009.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Equação
Olhando para o teto, lembrou da Bela Adormecida, seu conto de fadas preferido. Ela o tinha num livro ilustrado com fotos de bonecos vestidos como as personagens, o que criava uma atmosfera aterrorizante para a corte do palácio onde todos dormiram por cem anos. Até que um dia, um príncipe encantado chegou ao reino com seu cavalo branco e despertou a princesa do sono profundo com seus beijos mágicos.
Lúcia levantou-se e foi fazer café.
domingo, 16 de novembro de 2008
Novembro tem mais duas semanas
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
terça-feira, 23 de setembro de 2008
The Giant and the Dragon
When he grew up, he actually became a giant. Girls like giants but he was too shy to take advantage of it. His legs were very long, so as his back and shoulders. He was then sent to another prison, where he was trained to become a soldier. There, they took away his heart as a drastic measure to kill freedom in him. Since then, he has a big hole in the middle of the chest. This proved to be useless though, because he had already been in the land of eternal present, where he ran and played and tasted freedom in its pure form. Freedom had been irreversibly inscribed in all his cells.
Finally he managed to escape and decided to move to another continent, a land also full of saints, angels, gods and ghosts. He decided it was time to be free. So he began to travel around to see if he could find a place to live freely and peacefully.
That’s when I met the giant. He was wandering round and round and I invited him to come to my place. In the first night he couldn’t sleep and he was so big he didn’t fit in the bed. He was also afraid of the ghosts that haunt my house. I don’t really know why, but he stayed in.
In the mornings, when he is having breakfast still sleepy he regularly spills out the milk or the coffee with his clumsy arms. He takes a special medicine to control the body shakes provoked by the immense freedom he has locked inside him. I think he needs to rest for a while. He is looking for a path which has a heart in it and it is not an easy task for anyone. He is very fragile, has a beautiful smile and likes to drink bitter liquids and eat raw fish. He told me he has a dragon hidden inside.
When he meets with this dragon he will be finally able to fly.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
YES! Nós temos ingressos para o show da Mart'nália.
Por aí na noitada
Me acabando de rir
Se eu disser que não digo
E não ligo e que fico
Só vou aprontar...
(...)
É que eu sambo direitinho
Assim bem miudinho
Cê não sabe acompanhar
Vou arrancar tua blusa
E por no meu cabide
Só prá pendurar
Quero ver
Se você tem atitude
Se vai encarar...
Chega de fazer fumaça
De contar vantagem
Quero ver chegar junto
Prá me juntar, eh!
Me fazer sentir mais viva
Me apertar o corpo e a alma
Me fazendo suar
Quero beijos sem tréguas
Quero sete mi'léguas
Sem descansar
Quero ver
Se você tem atitude
Se vai encarar..."
Pra não dizer que não falei das rosas
no Largo do Machado
ainda estão vivas.
Hoje é quarta-feira
Nunca compro rosas.
Prefiro margaridas, begônias, flores do campo
Mas estas rosas estavam tão
irresistivelmente lindas naquele balde sujo na calçada da rua do Catete
que eu precisei tê-las.
Trouxe-as para casa envoltas
num pedaço de jornal velho.
E elas retribuiram meu gesto
permanecendo vivas
Até hoje, quarta-feira.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Deixar-se entalhar pela madeira
- E quando descobrimos que as possibilidades daquela madeira são muito limitadas? E quando a madeira tem, de fato, muito pouco para dar? E quando suas lindas tramas seduzem, mas não mais encantam? O que acontece quando aquele mundo outrora repleto de promessas simplesmente não oferece mais nada do que o artista deseja?
- Quando o artista não se emociona mais com aquela madeira, é hora de deixá-la pra trás. Hora de parar, ficar quieto, observar ao redor. Às vezes ele está caminhando e topa de repente com uma bela madeira nova. Às vezes, ele tem que partir em longas expedições até encontrá-la. Mas ele só tem como saber que é aquela madeira que procurava depois de arriscar conhecê-la. Como eu disse, é tudo uma questão de tempo e intimidade. Só ganhando intimidade com a madeira que ela vai mostrar todas as possibilidades que contém dentro de si, as tramas escondidas. Ele pode encontrar coisas maravilhosas e é claro que vai topar com entraves e limites. Mas se tiver medo e evitar ser íntimo, simplesmente nunca vai saber se encontrou o que procurava. Arrisca jogar fora a madeira certa ou perder muito tempo com a errada. Então é certo que a madeira é a matéria-prima do artista. Mas o artista de verdade também é matéria-prima da madeira. Deste encontro, ele retira forças e coragem para se deixar entalhar por ela.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Gente é que nem madeira
Jaco:
- Uma coisa que eu aprendi é não esperar das pessoas uma coisa diferente do que elas podem dar. Todo mundo tem algo pra dar, alguns mais, alguns menos. E você tem que captar o que é que cada um tem pra oferecer. E pegar, e receber. É que nem quando faço escultura com madeira: você não pode querer tirar dela algo que ela não tem, algo que não tá dentro daquelas possibilidades.
- E se você cismar que quer porque quer um formato tal?
- Não se faz o que se quer com a madeira. Se você resolver que quer fazer uma escultura toda vazada, pode ser que a madeira não resista, que ela rache ou quebre.
- E como faz pra saber se vai dar para fazer o que tá na sua cabeça?
- É que nem com as pessoas: uma questão de intimidade. De conhecer o outro, o jeito de ser do outro, as manias do outro. E isso só com o tempo. Tem que conviver, testar, ver os limites, as possibilidades. Experimentar, arriscar. Tem que estar atento às tramas e nós da madeira. Você vai sentindo, conhecendo, ganhando intimidade e o resultado nunca é exatamente como você imaginou. Não é nem mais você, nem a madeira. É uma outra coisa.
- E o que é essa outra coisa?
- Essa outra coisa é o novo.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Lança-chamas
São letras tóxicas
a imprimir pressa
ao teu fluxo de sangue
que por mim atravessa
São letras vivas
que lançam chamas
Teu corpo-lava
meu seio-cama
No ponto de ebulição, a vida se congela.
E nossas mãos tremem de desejo e medo.
Escrevo essas palavras
para decifrar um segredo.
domingo, 3 de agosto de 2008
Solução marinha
Volto como se nunca tivesse partido. A mala se desarruma sozinha: sandália, short, camisola, brincos - miudezas que me fazem acreditar que sou eu e não outra. As minhas coisas. A blusa verde de volta ao armário, as brancas à gaveta, o livro à cabeceira. O CD de volta ao som. O cigarro sobre a mesa. O banho quente. A certeza. Cheguei de viagem. Fui ao encontro do mar e recebi um abraço feito de água onda espuma sal. Quando vi, eu era água onda espuma sol. Solução marinha. Voltei pela primeira vez de um lugar para onde sempre fui. Eu não conhecia o mar. Ele é um homem que abraça forte e beija doce, sabia? Só queria brincar, mas fui fisgada. Feito peixe olhos vidrados corpo transparente. Amar, afogar-se fora d’água.
terça-feira, 29 de julho de 2008
XLI
Para que as mãos não cometam
Os atos derradeiros:
Envolveremos as facas e os espelhos
Nas lãs dobradas, grossas.
E de alongadas nódoas, o ressentimento.
Pintadas as caras num matiz de gesso
Recobriremos corpo, carne
Na tentativa cálida, multiforme
Na rubra pastosidade
De um toque sem sofrimento
E afinal
Cara a cara (espelho e faca)
De nossas duplas fomes
Não diremos."
(Hilda Hilst. XLI. Do amor).
terça-feira, 22 de julho de 2008
segunda-feira, 21 de julho de 2008
História da Minha Vida (1)

"Busquei outrora a luz nos domínios da psicologia. Era absurdo. Quando compreendi que essa luz estava dentro de princípios e que esses princípios estavam em mim, sem de mim ter nascido, pude, sem grande esforço e sem mérito, alcançar uma perfeita paz de espírito. A do coração não a consegui, nem a conseguirei jamais. Para os que nasceram compassivos haverá sempre, sobre a terra, algo a amar e, conseqüentemente, a deplorar, a sofrer e a tolerar. Não devemos, pois, em qualquer idade que seja, buscar a ausência da dor, da fadiga e do medo, pois isso importaria em insensibilidade, em fraqueza, em morte antecipada. Quando aceitamos um mal incurável suportamo-lo melhor". (George Sand, História da Minha Vida, 1856, vol. 1, p.12)
Diz Tal:
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Era isso o que temia
Ter de ser poeta
Ter de fazer poesia
Era isso o que temia
Expor a dor que me habita
Sem retorno, sem garantia
Era isso o que mais temia
Enveredar por um caminho
E aportar numa ilha sombria
Me perder pela estrada
Mergulhar num vão sem água
Entregar sem pedir nada
O que é meu em demasia
domingo, 15 de junho de 2008
Um domingo
livros, papéis, jornal
café, cigarro, brilho labial
uma conta a pagar
o balanço do condomínio
o lento despertar
Ao longe:
violão do vizinho
o som do batuque
filete d'água
passarinhos
No chão:
sandálias da noite anterior espalham-se exaustas.
No peito:
filete de coração liquidificado mancha a blusa.
